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28 de agosto de 2016

FORMULA 1 - Em 300º GP, Jenson Button pensa em vida pós- F1: Le Mans, triatlo e rallycross

Max Verstappen, da RBR (Foto: Getty Images)O veterano Jenson Button de 36 anos relembra carreira, corridas históricas, companheiros de equipe complicados e nova geração da Fórmula 1.


Se ainda existem gentleman na F1 ele está personificado na figura de Jenson Alexander Lyons Button, inglês, 36 anos, piloto da McLaren-Honda e campeão do mundo de 2009 com a Brawn GP. 

Neste fim de semana Button celebra no Circuito Spa-Francorchamps, na Bélgica, seu 300º GP na F1. Larga em oitavo, amanhã. Apenas dois outros pilotos disputaram mais etapas do Mundial, Rubens Barrichello, 326, e Michael Schumacher, 308.


O GloboEsporte.com conversou com ele a fim de contar a rica história de 17 temporadas na F1. Sua chegada na competição não seguiu as vias mais comuns. 

Em janeiro de 2000, Frank Williams precisava de um piloto para substituir Alessandro Zanardi, dispensado. Testou dois pilotos, na Espanha, o mineiro Bruno Junqueira, de 24 anos na época, quinto na F3000 em 1999, e Button, 20, terceiro no Campeonato Britânico de F3. A equipe Williams selecionou o inglês.

A TV Globo transmitiu o GP da Bélgica ao vivo neste domingo a partir das 9h (de Brasília)


Desde então tem deixado a sua marca na F1. Competiu pela Williams em 2000, Benetton, em 2001, Renault, 2002, BAR-Honda, de 2003 a 2005, Honda, de 2006 a 2008, Brawn GP, 2009, e desde 2010 está na McLaren

Além do inesperado título em 2009, Button já conquistou 15 vitórias, 8 pole positions e sua impressionante regularidade o levou 50 vezes ao pódio. Nunca se envolveu em situações escusas e é uma unanimidade entre os colegas quanto ao fairplay.

GloboEsporte.com: Esperava chegar nos 300 GPs quando Frank Williams te comunicou que, aos 20 anos, correria na sua equipe?

Jenson Button: Definitivamente não. Eu não achava que aos 30 anos estaria na F1. Pois eu tenho 36 e ainda estou aqui. 

O tempo voa, é incrível como passa rápido. Tive grande momentos no nosso esporte, assim como outros difíceis. Mas bem mais agradáveis. 

Chegar a 300 GPs é impressionante. Na realidade, foram 296 largadas até agora. 

Na Malásia, este ano, deverão ser 300 largadas e foi lá que conquistei meu primeiro pódio (terceiro em 2004, com BAR-Honda), perfeito, não? Vivi períodos tão distintos da F1, motor V-10, V-8, V-6 híbrido, agora, grandes transformações. 

Acho que é isso que me mantém na F1, a cada mudança um novo desafio, estamos sempre aprendendo.


ETERNO APRENDIZADO



Há uma lição maior, em especial, que a F1 te passou?

A importância de ter a mente aberta para enfrentar novos desafios e sempre aprender com eles. Este é o meu 17º campeonato e sigo aprendendo.

Você se lembra da sua primeira participação no GP da Bélgica, aqui em Spa (em 2000, com a Williams)?

Sim. Por coincidência outro dia desses eu assisti novamente à corrida na TV. Eu larguei em terceiro e bati (quarta volta), mas ao ver a imagem confirmei que não tive culpa. 

A curva 1 era diferente de hoje e Jarno Trulli (Jordan), em vez de ir lá fora, como todos, resolveu jogar o carro para dentro da curva, onde eu estava. 

Ainda recebi a bandeirada em quinto. Eu tinha chance de pódio, o que seria sensacional, pois era a minha estreia em Spa. Quando assisti à corrida, agora, pude ouvir o barulho dos carros. 

Eram modelos simples, comparados com os de hoje. Uma grande era desse esporte.

Jenson Button no GP da Bélgica de 2000 Williams (Foto: Getty Images)Jenson Button no GP da Bélgica de 2000 Williams (Foto: Getty Images)



Sente falta?

Não. É sempre interessante ver a F1 daquela época, mas não sou saudosista, nem mesmo do campeonato que venci. Curto muito, mas no seu momento.

Estamos vendo uma invasão de adolescentes na F1 e chegam bem preparados, como era quando começou?

Eu precisei de mais tempo para pegar a mão do carro, entender o que era a F1 do que esses meninos de hoje. Não dispúnhamos de simulador. 

Podíamos testar, é verdade, mas a carga de informações que recebíamos da equipe, dos dados do companheiro era bem menor. 

Precisávamos aprender quase tudo por nossa conta e isso demanda mais tempo. Pessoalmente prefiro aquele modelo de aprendizado.

Uma pergunta clássica: quais as corridas que mais ficaram na sua memória?

Eu guardo as boas e apago as más. Uma que adoro é a de Hockenheim, em 2000, meu primeiro ano. 

Estava em 16º no grid, o motor apagou na largada, caí para último e ainda cheguei em quarto, sob chuva. (Rubens Barrichello, com Ferrari, venceu seu primeiro GP.) São tantas. 

Meu primeiro GP, em Melbourne, quando cheguei a ocupar o quarto lugar e estava em sexto quando o motor quebrou na curva 3.


PONTO MAIS ALTO



O GP do Canadá de 2011 não está no seu arquivo?

(Risos) Em Montreal eu tive um drive through, um aerofólio dianteiro quebrado, um furo de pneu. Colidi com Lewis (Hamilton, companheiro de McLaren). Muito legal o que aconteceu lá. 

Foi uma corrida que reforçou um ensinamento, nunca desistir. Eu caí para último em duas ocasiões. E consegui vencer, assumir a liderança na última volta. Foi um daqueles eventos que parecem existir só nos sonhos. 

Durante a prova várias vezes acreditei que havia acabado para mim, abandonar, com tudo o que se passou. Aquele GP mostrou como é importante se manter firme, forte, focado e seguir dando todo o possível porque, de repente, as coisas podem virar para o seu lado. 

O carro estava fantástico aquele dia, verdade. A equipe fez um supertrabalho para garantir que os freios trabalhassem na temperatura ideal, naquelas mudanças de clima que tivemos, frio, chuva. Nossa temperatura era mais alta que a dos nossos adversários, os freios funcionavam melhor. 

Fui avançando, avançando e vi Sebastian (Vettel, da RBR, o líder) na minha frente. Ele começou a exigir mais e mais do carro, entendi que seria difícil ultrapassá-lo, seus pneus tinham temperatura melhor que os meus. 

Aí pensei, quem sabe se ele cometer um erro... Eu exigi tanto dele que, finalmente, errou, o ultrapassei e venci, tudo na última volta. 

Foi uma maneira meia maluca de terminar um GP que durou cinco horas. (A chuva paralisou a corrida por 2 horas e 4 minutos)

Jenson Button no GP do Canadá de 2011 (Foto: Getty Images)Jenson Button no GP do Canadá de 2011 (Foto: Getty Images)



Momentos difíceis?

Um em particular, no fim de 2008, quando não tinha equipe para correr em 2009. 

Foi duro. Nós tínhamos trabalhado realmente muito em 2008, na Honda, para disputarmos um grande 2009. 

(A Honda anunciou que por conta da grave crise mundial se retiraria da F1). Sabíamos que finalmente iríamos ter sucesso pela forma como conduzimos o projeto. 

E, de repente, fomos informados que o time fecharia as portas. (A Honda liberou uma verba pequena para Ross Brawn levá-la adiante com o nome de Brawn GP. 

O carro que estava pronto era, de fato, dos mais eficientes, com o duplo difusor, a ponto de a modesta Brawn GP, com motor Mercedes em substituição ao Honda, ser campeã com Button. 

Rubens Barrichello, companheiro de Button, ganhou duas etapas e ficou em terceiro.)

Há quem veja similaridade entre aquela temporada, de dominação da Brawn GP, e o período atual, onde apenas a Mercedes ganha as corridas (Button venceu seis das sete primeiras etapas e foi terceiro na outra. Não chegaria mais em primeiro naquele ano.)

Essa comparação me chateia. Esta (Mercedes) é uma escuderia sólida, superbem estruturada, que chega em primeiro sempre. 

Nós não ganhamos todas as corridas em 2009, apenas algumas no começo do campeonato e depois não mais. 

Não estabelecemos também sempre a pole position ou mesmo largamos na primeira fila. Nossa margem não era tão grande. 

E da sexta etapa em diante não dispúnhamos do carro mais rápido, enquanto outro time (RBR) dominaria a F1 a seguir. 

Não dá para comparar. Hoje há outra equipe ganhando tudo. Conta com grandes profissionais, bom orçamento e ótimos pilotos também. 

Para vencê-los será preciso uma mudança de regulamento, como em 2017, mas não estou certo de que passarão a ter adversários.

Na sua visão 2017 será como os últimos?

Ainda será difícil batê-los (Mercedes), mesmo com a introdução das novas regras. Nós sempre ouvimos que o time que está ganhando não segue vencendo quando o regulamento muda drasticamente. 

Acho que em 2017 será a primeira vez que isso acontecerá, quero dizer, eles (Mercedes) continuarem muito competitivos.


FUTURO INCERTO



Se sente estimulado para continuar na F1?

Os carros vão ser mais divertidos de pilotar. Serão mais ou menos quatro segundos mais rápidos, o que é de fato muito. 

Os carros passarão na curva 3 de Barcelona 30 km/h mais velozes, é uma diferença enorme. Penso ser exatamente o que a F1 precisa nesse momento. 

Não somos mais exigidos fisicamente. Em 2017 voltaremos a ser. Sobre se estarei na F1, não sei, ainda. Um dia percebo que quero seguir competindo e no outro sinto que basta. 

Eu vivi os últimos 17 anos seguindo a programação estabelecida por Bernie Ecclestone, talvez eu deseje, agora, fazer a minha própria agenda. 

Nas próximas semanas vou dizer o que farei, quem sabe antes.

Como se sente sabendo que o mercado de pilotos depende da sua decisão para mexer as próximas peças, outros pilotos definirem seu futuro?

(Risos) Eu tenho algumas opções fora da McLaren. Eu ainda não conversei com Ron Dennis (sócio e diretor da equipe) sobre permanecer ou não na McLaren em 2017. 

Eu preciso saber como será aqui antes de me decidir sobre os outros. Tenho de esperar até setembro (dia 1º é já quinta-feira e no dia seguinte começam os treinos livres do GP da Itália, em Monza.)

Se decidir deixar a F1, já pensou o que fará?

Há tanta coisa que eu quero fazer na minha vida em termos de competição. 

Pretendo disputar as 24 Horas de Le Mans, se surgir uma boa oportunidade, se sentir ser possível lutar pela vitória. Eu adoraria, é uma grande corrida. Amo rallycross. 

Meu pai costumava disputar essas provas e estão se tornando mais e mais competitivas, com a presença de pilotos fantásticos, como Sebastian Loeb. 

Eu adoro também o triatlo, pretendo disputar o mundial. Como você vê há uma série de coisas que desejo fazer, sempre algo muito competitivo. 

Tudo que nunca pude fazer por causa de a F1 te exigir dedicação integral. Não estou reclamando, tendo sido maravilhoso permanecer na F1, mas...

Você atingiu todos os objetivos que desejava na F1?

Definitivamente, sim. Como falei, nunca imaginei que aos 36 anos estaria aqui e sendo ainda competitivo, correndo como companheiro de um bicampeão do mundo e eu mesmo tendo vencido o campeonato. 

Minha resposta é que atingi mais do que eu queria. 

Mas quando você está de fato satisfeito? 

Eu acho que Ayrton Senna nunca estava contente com o que conseguia, sempre desejava mais e mais. 

E teria obtido ainda mais sucesso, com certeza, se tivesse seguido adiante. Quando reflito sobre minha carreira, percebo que nunca corri com um companheiro que nos anos em que estivemos juntos ele conquistou o título e eu não, se você me entende. 

E olha que companheiros de equipe eu tive, Lewis (Hamilton), Fernando (Alonso).

COMPANHEIROS DE EQUIPE


Por falar em companheiro de equipe, quais os mais velozes, completos que conheceu?

Dividamos em duas coisas, atmosfera no grupo e desafio esportivo. 

Em termos de atmosfera, os mais difíceis foram Ralf Schumacher (Williams, no seu primeiro ano, 2000) e Jacques Villeneuve (BAR-Honda, 2003). 

Eu era bem jovem, ainda, e eles não gostavam de um piloto como eu no time, o que tornou as coisas muito difíceis, mais com Jacques que com Ralf, que se sentia meio que o dono da equipe.

Jenson Button foi companheiro de Jacques Villeneuve em 2003 na BAR (Foto: Getty Images)Jenson Button foi companheiro de Jacques Villeneuve em 2003 na BAR (Foto: Getty Images)



No lado esportivo...

Lewis, quanto à velocidade. Ele podia ser impressionantemente rápido na classificação e você se perguntava onde raios ele foi buscar aquele tempo? 

Mas podia, também, se perder na corrida. Dava para ver seu enorme talento, mas ainda não totalmente domado. 

De repente você vai para a pista tendo certeza de que irá vencê-lo na classificação e volta para os boxes quatro décimos mais lento. Mas no dia seguinte, na corrida, ele desaparece. 

Você está liderando e se pergunta onde Lewis foi parar? Provavelmente Lewis é o piloto mais rápido que pilotou um F1, talvez Senna, não dá para comparar. 

Mas o piloto mais completo que vi é Fernando. É incrível como ele trabalha com a equipe, ele é muito inteligente. Sabe como criar seu caminho no grupo. 

Também em termos de como ele compreende a corrida. Ele está sempre lá. Você não tem como fugir dele. 

É um companheiro realmente duro, mas emocionante, desafiador tê-lo. Eu me sinto feliz de trabalhar com ele nos dois últimos anos.

Fernando Alonso e Jenson Button devem continuar enfrentando muitos desafios em 2016 (Foto: Getty Images)Fernando Alonso e Jenson Button são companheiros de McLaren (Foto: Getty Images)



Dessa geração superjovem que está aí, Max Verstappen, 18 anos, Esteban Ocon, 19, Stoffel Vandoorne, 24, quem te impressiona?

Max e Ocon me impressionam. Todo teste que Ocon fez ele foi tão rápido ou mais que o titular quando foi piloto reserva. 

Vi corridas dele na F3. Max e ele são muito talentosos. Têm muita velocidade. Mas, claro, temos de esperar para ver o que acontece. Max já está numa grande equipe. 

Para Ocon tudo é ainda novidade (está estreando neste fim de semana, em Spa, na Manor, e amanhã larga em 18º). Apostaria neles como pilotos de futuro. 

Porém como disse a F1 é um esporte difícil e há dificuldades de toda natureza. É complexo se manter na F1 e, mais ainda, manter-se competitivo. 

Quem não corresponde cai fora e dão chance ao próximo. É um imenso desafio, esses meninos precisam ser mentalmente fortes, além da habilidade que têm.

Max Verstappen, da RBR (Foto: Getty Images)Max Verstappen, da RBR (Foto: Getty Images)



Seu pai, John, foi uma figura muito querida no paddock. E acompanhou cada passo da sua carreira, sempre presente, a viabilizou. Gostaria de dizer algo? (Faleceu em janeiro de 2014)

Preferiria não dizer nada. Vamos, por favor, falar apenas de automobilismo. 

A única coisa que posso dizer é que tudo é muito diferente para mim sem ele aqui, revi minha opinião a respeito de muitas coisas.

John Button durante a festa de comemoração do título de seu filho Jenson Button, em 2009 (Foto: Getty Images)John Button durante a festa de comemoração do título de seu filho Jenson Button, em 2009 (Foto: Getty Images)



Neste GP, aqui em Spa, o que é realista você conseguir?

Pontos, sem dúvida. A McLaren tem novidades no carro e a Honda no motor. 

Vamos para as próximas corridas com o objetivo de terminar o campeonato de construtores na quarta colocação, o que seria um avanço extraordinário se comparado ao que fizemos no ano passado. 

 Spa e Monza, próximo GP, não são boas pistas para nós, mas as demais, sim. Considero possível atingirmos nosso objetivo. 

(A McLaren é a sétima, com 42 pontos. A quarta é a Williams, com 96, seguida da Force India, 81, e STR, 45.)

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